
O bispo Robinson Cavalcanti, consagrado articulista da Revista Ultimato, após uma profunda e rica análise social ataca, em tom profético, aquilo que considera ser nocivo e lesivo à igreja brasileira. Chamou-nos a atenção a posição por ele defendida no capítulo 6 (“Os Caluniadores de Satanás”).
Ora, é bem verdade que há excessos e mesmo confusão na mensagem pregada sobre demônios. Há, de fato, uma transição do cristocentrismo para uma espécie de espíritocentrismo místico. É fato. Mas não podemos fechar os olhos às manifestações que nos incomodam, principalmente às figuras intrigantes que parecem, muito mais do que os acadêmicos e as cabeças pensantes, ter ampla circulação e aceitação nos tecidos sociais onde, para obtermos trânsito, passamos anos discutindo, traçando estratégias ou buscando discursos coerentes.
Para exemplificar, cito o exemplo da reportagem publicada no Jornal O Globo de domingo, 30/04/2008. Lá, uma matéria intitulada “Os Tribunais do Tráfico” dá realce à marcante presença do pastor Marcos Pereira, responsável pela Assembléia de Deus dos Últimos Dias, na cidade de São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Estivemos pessoalmente em uma das reuniões dessa igreja e não foi dada a ênfase à pregação da palavra, mas às manifestações espirituais e de exorcismo público que parecem ser rechaçadas pelo autor do livro. Voltando à matéria jornalística, esta noticia o papel importante desempenhado pelo pastor Marcos, que atuando em favor do “acusado” obteve uma espécie de salvo conduto de um menor condenado à morte, podendo levá-lo para uma outra comunidade. Fechar os olhos a esta realidade fenomenal apenas por amor ao argumento da academia, além de ser patético pode perfeitamente ser julgado como pura arrogância. Portanto, se por um lado há a verdade no excesso do demonismo, digamos, por outro, há manifestações, fenômenos e situações que, ou são fruto de uma multiforme atuação espiritual, ou são questões que nunca poderemos explicar. Satanás é caluniado quando atribuímos a ele a nossa sordidez e baixeza (sua figura é a de um grande aproveitador e zombeteiro dos tropeços humanos), mas não quando se parece ou se busca ter uma percepção espiritual maior do chamado “mundo espiritual” e suas leis. Que o digam os missionários que trabalharam em comunidades e tribos africanas encarando e enfrentando figuras religiosas locais que invocam espíritos ancestrais e que impressionam pela manipulação de um poder desconhecido do ser humano. Não podemos, ao contrário do que sustenta Robinson Cavalcanti, reduzir o problema a uma mera questão de desordem dos homens em que se culpa Satanás. Devemos ir além. Portanto, ao revés de condenarmos tudo o que vimos e ouvimos a esse respeito, tratar do tema como investigadores interessados e desprovidos de arrogância.
Em outro ponto, concordo plenamente com a análise do autor, no capítulo seguinte, de que “Se o centro de poder deste mundo se concentra nos Estados Unidos, é de sua natureza que Satanás ali acampe seu trono” (p. 52). Como corolário, podemos dizer que a igreja estadunidense (homenagem ao Osvaldo), por estar inserida neste contexto, esteja sujeita, como Roma nos seus negros dias áureos, a um ataque sutil e mortal de Satanás e que nos tornamos vítimas de tal contaminação quando ao invés de gerarmos uma teologia com brasilidades, assimilamos tudo o que vem dos irmãos do Norte, sem crítica, sem exame e pior, sem consulta ao Espírito Santo. Nesta esteira não só assimilamos a bizarra “gospelização” da música, como os escritores e defensores de teologias que tem muito mais sua inspiração em Mamom do que no Espírito Santo. Triste dizer, mas temos nos transformado em idólatras por tabela. Adoramos os números, contemplamos os templos, somos sufocados pelas atividades e negligenciamos os relacionamentos e o partir do pão que durar mais que dez minutos.
Nos outros dois aspectos abordados no livro, creio que o autor seja profundamente feliz – e não poderia se esperar menos de alguém com sua formação e militância.
Assim, quando fala dos cristãos e do país, concordo com seu pensamento de que nosso crescimento numérico não acompanha o aumento da relevo da igreja como instrumento necessário de mudanças. Ainda somos muito fechados e cheios de senões. Ainda temos medo de dar comida a famintos porque ficarão sempre voltando somente pela comida. Ainda temos receio de dar dinheiro de passagem para socorrer um viciado porque ele irá cheirar tudo o que ver pela frente. Paulo disse que o reino não é comida nem bebida, mas esquecemos que ele é justiça (até mesmo de comida e de bebida). Templos faraônicos não parecem ser o que Jesus, que parecia não ter apreço pelo prédio de Herodes, desejava para o abrigo de sua igreja.
Fico feliz quando ouço falar de jovens que têm varrido calçadas em Nova Iorque e em Sidnei (Jorginho), ou que tiram um dia para cuidar da casa de um idoso, mas que não estão fazendo só porque precisam de fazer algo, mas porque acreditam que o evangelho ainda é poder transformador do mundo. Mahatma Gandhi que o diga. Ele acreditou no evangelho que despregamos, mas alguns o julgarão por ser Hindu.
Triste é concordar que é próprio do brasileiro o estranho estado de anestesia e passividade, a falta de vontade de reivindicar, de combater. Que o digam os isolados e subjugados movimentos internos – inclusive com papel atuante da igreja protestante em prol da ditadura – contra a injusta Revolução de 1964 (que invocou todos os diabos republicanos e democratas do Norte). Fomos vítimas da esperteza da “Integração Nacional”, do “Populismo”, do “Paternalismo”, que colocou, e ainda coloca, pão e circo na mesa dos pobres e desvalidos. A fome mata, mas o diabo também tem dado de comer e nós vamos caminhando a favor do vento e não mais contra ele. Brasília não foi o deslocamento da capital para o interior, mas o afastamento estratégico de qualquer reação popular que possa nascer do Brasil. Brasília é um grande esconde-esconde. Nossos irmãos argentinos batem suas panelas na frente da residência presidencial e são aguerridos. Nós saímos às ruas quando a Rede Globo não quer mais o presidente (falo com respeito ao deposto Collor de Melo). Envergonha-nos saber que Rubem Alves foi presbiteriano um dia e que foi entregue por seus próprios irmãos aos institutos de repressão.
Faço coro também contra o israelismo das igrejas. É bandeira do Estado de Israel, chofar e até uso de solidéu. Só falta mesmo a circuncisão (será que falta?). Somos brasileiros! Somos uma igreja brasileira, frutos da manifestação do amor e da graça de Deus em vasos brazucas.
Anteontem, dia 31/03/08, assistia uma brilhante entrevista com o saudoso educador Darci Ribeiro que dentre todas as virtudes nacionais exaltava a característica maior de nossa nação: o brasileiro. Somos uma mistura de brancos com pé na África, pretos de sangue ibérico e de índios com pedigree português. Glória a Deus por isso! Darci Ribeiro dizia que ao contrário das colônias dos Estados Unidos e do Canadá, que sofreram um enxerto de europeus dizimadores de aborígenes, o brasileiro se tornou uma mistura de índio, negro, português, inglês e todo o tipo de nação amiga que por aqui aportava. Tal afirmação pode conter uma boa dose de nacionalismo, mas a verdade é que nos tornamos uma nação amiga, um povo gentil e simpático, festivo e alegre e que já teve seus valores nacionais ameaçados por mensagens de missionários que nos endemonizavam de maneira errada, enquanto suas nações estavam aos quatro cantos da terra brincando de espalhar guerras e rumores de guerras. Concordo com Robinson Cavalcanti que necessitamos de mais brasilidade em nossa teologia, liturgia e coração. Aliás, considerei fantástica a idéia defendida no apêndice (p. 143) a respeito dos “terreiros de Jesus”. Ainda há muita gente que só estende a mão para amarrar os demônios dos terreiros de candomblé e às vezes – como já fiz – contra o próprio candomblecista, que não jogou feitiço em mim, mas deve ter ficado com uma bruta raiva.
Servem eles ao diabo? Sim, porque são escravos de sua mitologia, de seu misticismo e dos deuses que atendem a seus caprichos, mas será que não era a hora de estendermos a mão para dar um bom dia? Para lavar a pele machucada pelas amarras que suas entidades impõem? Um beijo, um abraço, um bom dia, desses que nem os seminaristas daqui de nossa Colina são capazes de dar um para o outro em nossas idas-e-vindas. Como sustentamos desde o início, não arriscamos comentar sobre o que nos fascina e sobre o que não temos domínio, mas já é hora de começar a repreender espíritos beijando os oprimidos.
Sobre o país, portanto, concluímos com a profética, e mesmo ousada, afirmação do professor Robinson Cavalcanti que “Deus usará o Brasil quando o seu povo aqui for brasileiro. Se não formos nós mesmos, mas a ridícula imitação de outra coisa. Ele nos dispensará e usará outra coisa, pois Ele sempre prefere o original” (p. 102).
Por fim, sobre o mundo, concordo com o autor que “Mamom vive a sua glória” (p. 112). É triste ver a quantidade de discursos sobre dinheiro e riquezas. Lutero em uma de suas 95 teses disse “Fora com os profetas que dizem paz, paz, quando não há paz e abençoados sejam aqueles que dizem cruz, cruz, quando não há cruz”.
Estamos nos tornando uma aberração. Vivemos a era do cristianismo sem cruz e se o cristianismo não tem mais cruz, o mundo também carecerá de sua presença. Falamos de dinheiro, de construções, de conquistas, de vitórias, mas torcemos o nariz quando alguém fala de disciplina, discipulado, caminhada e simplicidade. Dinheiro só tem a ver com Jesus, quando ele faz parte da renúncia. Pode parecer um paradoxo, mas não é. O dinheiro só passa a ser benção para nossas vidas quando renunciamos a influência que ele exerce sobre nós. Isso é tomar a cruz e seguir.
Nesse passo, o problema da ausência de cruz é que a doutrina neoliberal ganha terreno não só no mundo como no coração da igreja, no lugar que antes era ocupado pela cruz. Mas há algo pior e o neoliberalismo como doutrina assumida pela igreja gera a teologia da prosperidade que Robinson Cavalcanti classifica como “a versão religiosa do neoliberalismo”. A teologia da prosperidade é, pois, um vírus do neoliberalismo e é mortífero. Afinal, o louco que dialoga com Jesus e cuja alma seria tirada ainda naquela noite, não seria tão louco se esticasse seus celeiros para a “glória de Deus”. Assim, passa-se à espiritualização determinista da pobreza. Diz-se a inverdade de que todo pobre é idólatra, quando o contrário é quase sempre verdade, mais fácil, inclusive, que um camelo passar pelo buraco de uma agulha! É pertinente, portanto, o questionamento do autor lançado na página 122: “ ‘A culpa para a pobreza do Nordeste é a devoção idólatra ao padre Cícero do Juazeiro’. Ao que contestei: “E a culpa para a riqueza de São Paulo é a idolatria de Aparecida?”.
E concordo, ao final, que haja uma necessidade de enfoque em “uma filosofia da história, quando se crê que nunca existiu época perfeita ou época abandonada pela graça comum” (p. 134).
Há algum tempo atrás li um livro onde a autora, uma conhecida “guerreira espiritual”, cometia o erro histórico de dizer que nós hoje somos mais bem preparados e informados sobre batalhas espirituais do que os nossos ancestrais durante o avivamento. Portanto nossos resultados hoje são infinitamente maiores e mais eficazes. Não sei onde a tal senhora estava com a cabeça, mas um pequeno estudo da história talvez a tornasse menos presunçosa.