segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Tentação da oração...



Responda sinceramente: você já se sentiu tentado a orar? Você diria que isso não existe e me lançaria de pronto a recomendação do irmão Paulo à comunidade de Tessalônica: Orai sem cessar. Isso é verdade. Mas nossa oração, quando não é pelo Espírito e no Espírito é vazia e sem sentido. Sem razão de ser. Já aconteceu isso com você? Às vezes somos tentados a orar. Orar o que queremos, orar como interpretamos a verdade, orar sem sentido, orar sem sentir. Orar é compartilhar a dor do outro. É vibrar com a conquista do outro como se fosse sua, como se fosse participação sua. Orar é orar conforme o anseio do outro. Um pai que deseja um filho voltando ao lar nunca oraria para que deus (ponho em letra minúscula porque este não pode com certeza ser um Deus com "d" maiúsculo) levasse seu filho. Essa oração seria: deus, resolva meu problema. Ponha um fim no outro. Não acredito nisso. Aprende-se muito com Davi e sua fuga do rebelde Absalão. A propósito, humanamente falando, o jovem estava repleto de argumentos para poder substituir seu velho e falido pai. Esqueceu-se de uma coisa: Davi não orava contra seu filho. Duvido que Davi tivesse levantado um clamor do tipo: mate-o Senhor, mate-o. Não combina com seu jeito de ser. Lembro que pediu a um de seus militares que poupasse o jovem Absalão. Digo isso para que cada vez mais percebamos e cresçamos no sentido de que orar pelo outro é orar sentindo a dor do outro. Carregar a culpa do outro é se dividir o peso com ele. É penetrar na vida alheia com paixão e identidade. Uma oração dessas não é uma tentação, mas um convite ao mergulho numa dimensão eterna. A oração tentadora é daquelas que se conformam com este mundo onde vivemos. A foto descreve melhor o que tentei lhe dizer em tantas palavras.

O belo não é ser bonito... Nem feio. O belo é ser humano.

Dez para uma da manhã. Estou aqui, insone, de frente para meu pc, ouvindo o Jornal da Globo ao fundo e pensando sobre esse título que está martelando minha mente desde ontem. Não sei se você já notou -- posso estar enganado e você pode me corrigir --, mas nenhum dos livros do Novo Testamento trata, em momento algum, sobre a beleza humana. Não há belas mulheres nem belos homens. O Antigo, por sua vez, exalta homens belos e musas inspiradoras de beleza. Que o digam os belos Saul e Absalão e a linda Rebeca, que encantou o prometido Isaque. No Novo isso parece que não era importante. Deixa-se quase entender que não existe pode existir ser mais belo que Jesus. Se você colheu também esta impressão, que bom. Tenho encontrado beleza onde só há espanto e aparente desesperança. Tenho encontrado o belo onde o mundo vê tudo feio e também tenho notado a feiúra daquilo que dizem ser bonito. Jesus não era nem bonito nem feio. Jesus era belo. Isso lhe bastava. O belo ser humano chamado Jesus trazia beleza, graça e verdade por onde quer que passasse. Isso incomodava os feios que se pensavam bonitos. As palavras de Jesus são belas porque o seu ser é belo.
Outro dia me abati com a morte de uma menina nova que rendeu-se à tirana exigência que a beleza do mundo nos impõe. Chorei sua morte. Chorei por sua mãe. Era sua única filha. Como esse nosso mundo está feio! Cada vez menos humano. Cada vez menos belo. Lembro de um antigo hino que meu pai costumava cantarolar em casa: "Que a beleza de Cristo se veja em mim". Que verso feliz. O mundo precisa da beleza de Cristo. A beleza humana. Do ser humano restaurado e pleno que encontra uma razão para sua existência. Que não está preocupado com o tamanho de seu espólio após a morte. Ah! A morte. Essa é implacável. Ela não só é feia, é horrível. Não conheço um ser humano que em sua sã consciência veja alguma beleza em sua chegada. Não pode ser são, perdoe-me a franqueza. Mas a beleza de Jesus não poupou nem a morte. Jesus era tão belo que só poderia ser santo (estou furtando a idéia do BOFF, desculpe-me. Afinal é uma bela idéia), tão santo que só poderia ser humano. O humano de Jesus é o belo e ponto final. A beleza de Jesus é a vida para o outro. A vida necessária, que gera vida, que carrega vida, que conversa com a vida. A feiúra do desumano é a vida em si mesma, por si mesma e para si mesma. Darwin não estava certo (não falo de criacionismo). Não são os mais capazes que sobrevivem. É a beleza que mantém a existência. A beleza verdadeira é livre. Livre para ser feia, livre para ser bonita. Mas pode haver beleza na feiúra? Veja que não nego a existência do feio. O feio existe e não é bonito como lhe parece. Contudo, o que é belo, permanece belo, não importa como lhe vejam. Belo é ser como Jesus. Belo é ser humano.

Jesus convive com os pecadores e com aqueles que pensam que não são...

Reflexões sobre Lucas 7,36-50

Quando ouço a palavra fariseu, não sei se você consegue enxergar assim, vem logo à minha mente um indivíduo carrancudo, presunçoso, arrogante e religioso no pior sentido da palavra (há melhores sentidos). Contextualizando, um crente com cara feia que está sempre querendo consertar o mundo à sua volta e que carrega uma Bíblia que seja pelo menos a metade do seu braço para que todos possam enxergar a sua preferência religiosa (aliás ouvi num programa de rádio uma irmã recomendando as pessoas a comprarem nesse natal uma bíblia bem grande para que as pessoas pudessem ver quem essa pessoa era). Voltando ao assunto, tudo é farisaísmo, religião da pior espécie, portanto, com Bíblia grande ou baixada para dentro do seu celular.
Certa vez, Jesus aceitou um convite para jantar na casa de um fariseu. Esse homem morava na cidade de Betânia, fora da cidade santa, e tinha uma característica interessante além de ser um homem religioso. Ele era leproso. De certo modo, sua lepra o banira de sua religião porque os leprosos eram considerados imundos. Mas aqui é interessante notarmos que Jesus aceitou o convite. Foi jantar com o fariseu e, embora não tivesse sido bem recebido, estava visivelmente à vontade. Jesus nunca foi do tipo que se importava com o que os outros pensavam dele. É, sem dúvida, o ser humano mais livre que já pisou nesta terra.
Bem, o nome do fariseu era Simão e a sua intenção de convidar Jesus para o jantar não era a de se mostrar o melhor anfitrião. Queria julgá-lo. Queria por pra fora tudo o que pensava a respeito daquele que diziam ser o Messias, ser o Filho de Deus, ser o Profeta. Jesus recosta-se à mesa, como lemos no texto e enquanto está recostado, possivelmente deitado em uma almofada, como era o costume da época, chega uma mulher, que o texto não diz se era bonita ou feia, mas penso que no mínimo estivesse enfeitada para seus amantes. Tratava-se de ninguém menos que uma prostituta. Também não podemos dizer a razão por que se prostituíra, mas o fato é que estava ali procurando Jesus porque sentia no seu coração uma vontade imensa de lhe dar um presente. A mulher prostra-se diante dos pés do Jesus deitado no almofadão e pega os pés começando um ritual curioso e ao mesmo tempo cheio de beleza. Diz o texto que ela chorava sobre os pés e enxugava-os com seus cabelos. O choro retirou da mulher toda a maquiagem. Todo seu enfeite para chamar a atenção dos amantes havia ido embora. Pintura borrada, olhos vermelhos, coração pequenino. A mulher tinha mais por fazer. Não só beijava os pés do mestre e os acariciava como pegara um vaso de alabastro com um perfume caríssimo e simplesmente derramara todo seu conteúdo na cabeça daquele ser humano notável. O cheiro do perfume era agradável e inesquecível. Aquela mulher usava do mesmo cheiro para seus amantes, mas ali ela queria perfumar os pés do mestre. O corpo de Jesus banhado pelo óleo perfumado de uma meretriz. Então deu tudo o que tinha, ainda que fosse caro. Ainda que lhe custasse o trabalho de sua semana, talvez.
Havia várias impressões naquele ambiente. Havia um perfume maravilhoso, havia um coração restaurado e ao mesmo tempo corações sujos e comprometidos com aquilo que já chamamos de o pior da religião. O coração de Simão era um dos mais sujos. Pensava consigo, julgando o mestre: como pode ele, que dizem ser o Profeta, que faz tantos milagres, que é tão santo, deixar-se tocar por uma pecadora? Jesus, que conhecia todos os corações, mas que estava mais interessado no perfume e na vida que acontecia à sua volta, olha para o fariseu e vendo o seu coração conta uma ilustração: “Um credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentas moedas de prata, o outro, cinqüenta. Como não tivessem com que pagar, ele perdoou a dívida de ambos. Qual dos dois o amará mais?” A resposta de Simão foi obvia: “aquele a quem mais se perdoou”. A resposta de Jesus, que sempre impressiona, foi: “Julgaste bem!”. Aquele homem sabia então o que era piedade, sabia fazer julgamentos, mas olhava para Jesus com desdém e o julgava no seu coração por causa da mulher pecadora que lhe tocara. Simão não era só leproso. Era cego. Sua religião o deixara cego. Não conseguia enxergar a vida. Não era mais um ser humano. Era só um homem da religião. A mesma religião que lhe chutara da comunhão. Que não aceitava a sua doença. Que só contemplava os “religiosamente corretos”. Daí vem a resposta de Jesus a Simão. Cheguei aqui, mas você não lavou meus pés (nem ao menos dera uma bacia para que Jesus se lavasse), você não me abraçou nem me beijou enquanto ela, a que chamas de pecadora, não pára de me beijar, você não me derramou óleo sobre a cabeça, ela sim. E Jesus disse àquela mulher que muito amou: Perdoados estão os teus pecados. Mulher vai em paz, a tua fé te salvou. Jesus não precisava dizer mais nada.