sábado, 11 de setembro de 2010

O Mundo é dos Espertos

Há algum tempo atrás passei por uma situação embaraçosa na qual me vi entre o dever de me defender usando a verdade, ou confirmar uma mentira e perder meu emprego. Não que eu seja melhor que alguém, ou do tipo “perfeitão”, mas, naquela ocasião, perdi o emprego. Logicamente saí mal daquela situação. Pelo menos com as pessoas envolvidas. Fiquei mal também com a pessoa que me indicou para o emprego. A amizade se foi. O ex-amigo disse para mim que eu estava errado porque na vida o mundo dá voltas. Então, ouvi um indelicado sermão exortando-me que algum dia, no futuro, com certeza, iria precisar daquelas pessoas e que minha atitude havia descartado uma eventual oportunidade em minha vida. Analisando o que o ex-amigo me disse, a vida, segundo ele, consiste em toma-lá-dá-cá. Portanto, o mundo é dos espertos. Quem é esperto chega na frente, quem não é, já ficou para trás. Além do emprego, já deixei subentendido, perdi também o amigo porque falei que essa era uma verdade para a vida dele, não para a que eu estava aprendendo a viver. Minha atitude não tinha nada de original. Inspirei-me em alguém. Num referencial de peso para imitar.
Em Jerusalém Jesus poderia ter sido mais diplomático com os fariseus, poderia ter se entendido melhor com os guardas romanos e talvez, quem sabe, feito um acerto com Judas por debaixo dos panos só para que seu fim não fosse tão trágico. Mas ele não fez assim.
De fato, aos fariseus dizia sempre o que pensava. Com os romanos usou de franqueza e sinceridade e não estava nem um pouco preocupado em causar boas impressões nas pessoas, e, por fim, com Judas, ainda que conhecesse suas tortas intenções, não conteve seu coração ao lhe chamar de amigo até no infame momento da traição.
Ora, os fariseus representavam a nata religiosa de sua época. Eram o partido religioso majoritário, diziam a todos orgulhosamente que cumpriam os inúmeros detalhamentos da lei de Moisés. Por estarem em destaque deviam ser objeto de bajulação e falsa reverência por parte de quem deles necessitava. Arrisco dizer que alguns tivessem uma participação ou fossem até donos das barracas instaladas no pátio do templo, contra as quais um Jesus legitimamente enfurecido desferiu pontapés certeiros e de maneira nem um pouco “santa”. Os fariseus e toda a laia que os bajulava eram os espertos. Tinham poder, influência, estavam associados com Roma, gozavam de prestígio, que nada tem que ver com autoridade. Sim, ser esperto neste mundo é de certo modo estar por cima. Veja-se a extensa galeria de homens de índole duvidosa que governam sobre nós através de puro prestígio, mas com nada de autoridade. Chegaram lá com muita esperteza. Desde os tijolos e ambulâncias “comunitárias” até os monumentos que recebem seu nome ainda em vida, estamos rodeados de espertos de todos os tipos.
Para com os romanos, então, a esperteza não era só necessária, mas vital. Brigar com um deles não deveria ser boa coisa. Em sua fértil capacidade de criar instrumentos de violência e tortura, tiveram a esperteza de inventar a cruz. As pessoas dominadas por aquele império temiam-na. Devia ser uma morte das mais dolorosas. Ainda por cima era morte lenta. Como tratar um romano? Ora, nada complicado: tudo o que seu mestre mandar, faremos todos... Posso ver os sacerdotes de Jerusalém fazendo vista grossa para o paganismo dos invasores. Não digamos nada sobre seu culto a César! Não falemos nada sobre sua corrupção! Do Cesarismo ao Terceiro Reich parece que a velha máxima continuou a mesma. O mundo é dos espertos! Talvez alguém tenha de alguma forma dito isso ao pastor luterano Dietrich Bonhoeffer quando ele e mais algumas pessoas sem qualquer esperteza se dispuseram a denunciar uma igreja cheia de espertos que fez vista grossa para o arrogante argumento da raça superior ariana e que nada viu nem sabia sobre os campos de eliminação em massa das raças inferiores. Quanta esperteza junta! Aqui poderíamos ouvir que não valeria à pena se opor ao regime nazista, afinal seus opositores terminaram fuzilados ou enclausurados por anos. Isto, entretanto, seria o mesmo que pensar que Jesus ensinou que andar duas milhas (cerca de três quilômetros e duzentos metros) quando um romano lhe pedisse a metade disso, como uma expressão de medo, conformismo ou covardia. Contudo, o que muitos espertos não perceberam foi que Jesus falava de uma maneira muda, sem palavras, de se insurgir contra toda forma de violência brutal estabelecida por quem é esperto. Duas pessoas de destaque, uma cristã, outra não, perceberam o poder do seu ensinamento e abriram mão da esperteza humana para liderar dois movimentos durante o século XX que ficaram marcados na história. Mohandas Gandhi, inspirando-se em Jesus, pregou a não-violência e conseguiu, em 1947, a declaração de independência de seu país. Durante sua luta, entretanto, não houve um só momento em que este homem não ouvisse os espertos dizendo o que ele deveria fazer. Deveria pegar em armas, derramar sangue e resistir ao poder britânico! Pouca gente sabe, mas o reverendo Martin Luther King, um cristão, atravessou oceanos para conversar com aquele homem e liderou nos Estados Unidos o movimento pelos Direitos Civis através da prática da não-violência, que culminou com o fim das leis segregacionistas de várias cidades dos Estados Unidos da América. Estes dois homens, assim como Jesus, tiveram o mesmo destino. Foram assassinados pelos espertos. É, o mundo é dos espertos...
Sobrou-nos a esperteza de Judas. Interessante! Diria o ácido e cético personagem principal do seriado americano Doutor House. Por que o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, que conhece o coração dos homens e a quem seria dado todo o poder nos céus e na terra não teve a esperteza de eliminá-lo logo do grupo e evitar todo o sofrimento da cruz? Ou, se não podia vencê-lo, pelo menos juntar-se àquele discípulo tão esperto. Judas era doente pela aparência. Não só a sua, pois gostava de arrotar piedade e demonstrar consciência social, embora não passasse de um ladrão de quinta categoria, como a de seu mestre, que para ele, Judas, não era esperto o suficiente para se tornar o seu herói, um esperado libertador, um novo rei poderoso que subjugasse os romanos com poder político e que pudesse, quem o sabe, garantir-lhe um lugar ao sol no novo reino a ser instalado. Quanta decepção junta. Não sabemos se passou a desviar as ofertas porque estava indignado com a falta de esperteza de seu mestre, ou, se o fazia porque era ainda mais esperto do que pensamos. Judas não traiu Jesus com um beijo. Traiu-lhe quando decidiu continuar sendo esperto, ou ainda, quando ao mostrar ser mais inteligente que os outros discípulos, decidiu agir contra a falta de esperteza de Jesus ao invés de se contentar com uma estúpida disputa de alguns outros discípulos sobre quem seria o maior no seu reino ou a respeito de qual lugar ocupar numa mesa de jantar. O beijo do traidor só nos mostra uma coisa: Jesus não era esperto. Na verdade nem se preocupava com isso. Pouco importava ser ou não. Portanto, chamar o traidor de amigo e saudá-lo fazia parte de sua natureza que levou João a observar em seu evangelho que o mestre em total falta de esperteza amara seus discípulos até o fim. Por fim, já preso e contrariado, poderia ter sido esperto diante de um Pilatos visivelmente desconfortável com o que estava fazendo e usar de seu tão eloquente discurso, que atraíra multidões, para demovê-lo da possibilidade de crucificá-lo só para agradar um bando de espertos. Jesus preferiu dizer que o reino dele não era deste mundo. Pilatos lavou as mãos e o mundo continua sendo dos espertos.

Amigo Embaixador

Meu amigo embaixador, como o tema desta revista é família, não poderia deixar de contar um pouco da minha experiência pessoal porque talvez seja muito parecida com a sua. Bem, tenho dois filhos. Um, de um primeiro casamento que lamentavelmente não deu certo. O outro está aqui do meu lado, dormindo, depois de ter acordado três vezes durante esta madrugada chorando e querendo colo e leite. Nos fins de semana meu filho mais velho vem para minha casa e passeamos, jogamos Playstation, conversamos e brincamos de luta (ele sempre vence). Entretanto, a sua ausência dói muito, porque não estou acompanhando de perto o seu crescimento como queria. O que quero mostrar para você, em resumo, é que não há o que a gente possa chamar de família perfeita e ideal. Digo isso porque eu estou aqui escrevendo e incomodado com a realidade de um amigo embaixador (talvez seja você) que teve ou tem um pai ruim, que não conversa contigo, ou simplesmente não tem pai por qualquer motivo que seja. Ou sua mãe, avó, ou avô, foi quem, desde o início de sua vida, cuidou de você, deu dinheiro para você comprar figurinha e te deu as primeiras palmadas. Ora, diante dessas circunstâncias convido você a meditar em uma passagem da Bíblia que tem tudo a ver com a situação. Leia Tiago 1,17. Lá está escrito que: “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação”. Esse verso me marcou muito porque, curiosamente, numa época em que passei creio que a maior angústia de toda a minha vida, eu fazia minhas refeições olhando para ele que estava em pendurado em algum canto daquele lugar diante de meus olhos – penso que de propósito – só para me incomodar. Aquilo entrava em minha cabeça como o som de um martelo na parede do vizinho no meio da noite. Dádiva, amigo embaixador, é presente, é benção, e dom perfeito, que eu saiba, na Bíblia, é amor, o dom supremo do Senhor. Sugiro que você leia desta forma então: Toda benção e amor vem do alto. Muda um pouco nossa compreensão, não muda? Eu tenho certeza que aquilo era uma prova de que de alguma maneira Deus estava no controle, apesar de haver todos os motivos para desconfiar e desacreditar. Desde então, procuro enxergar Deus em todas as situações de cuidado e carinho que me cercam. Nos amigos e principalmente naquelas pessoas tão especiais que graciosamente se interessaram por nós e se dispuseram ao esforço de participar de nossa criação. Não importa quem seja, mãe, pai, avó, avô, tio, uma tia, pai adotivo ou mãe adotiva (são verdadeiros os ditos populares de que pai é quem crie e de que quem ama cuida). Quando sentimos esse amor temos que perceber que ele vem do alto, ainda que essa pessoa que nos ame ao ponto de perder tempo de sua vida para dedicar atenção à nossa não seja crente. É sem dúvida amor que vem de Deus e se é assim isso deve gerar gratidão em nossos corações ao ponto de agradecermos a Deus amando, respeitando e considerando essas pessoas. Veja que há aqui outro aspecto acerca da vida dessas pessoas: nem sempre são crentes. Ora, podem não ser crentes, mas não significa que não possam ser uma benção em nossas vidas. Quantas foram as vezes em que eu fui abençoado por uma pessoa que quer ver a igreja de longe! Deus abençoa a gente e isso é o que importa. A nossa forma de gratidão, que deve ser uma atitude do embaixador espiritual, é a de retribuirmos esse amor com respeito, carinho e submissão. Isso fará uma diferença enorme na sua família, seja ela grande, seja ela muito pequena. Não estou desmerecendo uma família que seja ideal: papai, mamãe e filhos. De modo nenhum. Só quero que você pense que o amor na família é um ingrediente essencial que vem de Deus e, se você, amigo embaixador, não tem visto esse amor na sua família, tente ser você o canal para iniciar uma revolução de amor. Se há pouco amor na família então ame mais. Se há pouco respeito, respeite mais. Se há pouco carinho, seja mais carinhoso. Se há pouca conversa, fale mais, puxe assunto. Seja a mudança que você espera ver. Toda dádiva e dom perfeito vem de Deus, que nunca muda. Deus não te dá nada que não seja benção e amor. Portanto, aquele que cuida de você, que acorda você para ir à escola, faz seu café da manhã é uma dádiva de Deus proporcionada pelo seu amor e graça. Só pode ser. Coisa do diabo é que não é! Opa! Um minuto! Com licença, meu amigão. Meu bebezinho acordou e tenho que ir lá dar uma atenção a ele. Minha querida Silvia, a mãe dele, já chegou lá e começou a cantarolar algumas canções e está preparando o banho dele. Sou grato a Deus por essa cena. Amo minha esposa, meus filhos, amo essa vida. Espero que meus filhos sejam embaixadores do Rei um dia. Embaixadores da gratidão. Amigão, é isso: lembre-se de se sempre agradecer.

O Quartinho de Deus

A gente cresce. Enquanto se é menino o mundo parece mágico e temos impressão de que as coisas que vemos são sempre imensas. Lembro-me que papai uma vez disse que íamos visitar um parente em Campo Grande, um bairro da grande cidade do Rio de Janeiro. Minha cabeça logo imaginou um campo enorme de futebol com muitas crianças correndo, jogando bola e soltando pipa. Mas a gente cresce. E quando se cresce parece que tudo perde o encanto. Tudo fica menor... Tão real. E a realidade é estranha. Lembro-me do encanto da primeira reunião de Embaixadores do Rei em que fui. Queria saber tudo, decorar tudo, ser arauto, escudeiro, conselheiro, ir no acampamento do Sítio do Sossego, queria ser o az (nunca consegui ser az nem acampante de honra).
No Sítio do Sossego eu orava em meu quarto da seguinte maneira: - Deus eu quero muito ser um az, se o Senhor me fizer ser az vou ser um menino muito obediente e mais crente (no fundo era o desejo de voltar para casa e exibir aquela linda medalha dourada para todos). Parece que Deus não ouviu minha oração... Pelo menos essa era minha impressão de menino. Mas a gente cresce e descobre que a vida é diferente, que as pessoas exigem da gente um comportamento e essa exigência, quando se é adolescente, é sempre chata. Acho que você concorda comigo, não? Nós temos muito medo do pecado, do castigo de Deus, e fica quase impossível descobrir Deus como um amigo real.
Se você tem fé, Deus não é um amigo imaginário. E é importante ainda na adolescência a gente descobrir que existe uma coisa chamada espiritualidade. A espiritualidade ensina a gente a encarar a realidade e ser não aquilo que exigem ou esperam da gente, mas aquilo que a gente vive e aprende na amizade com um Deus de verdade. Eu costumo chamar isso de a espiritualidade do Quartinho de Deus. Ninguém vê essa espiritualidade. Aquilo que a gente é quando ninguém está olhando. E não estou falando do que você faz com o seu computador dentro do quarto (se é que você tem um dentro do quarto). Estou falando sobre o que você sente e vive de Deus quando você não está na “igreja” no domingo, ou nas reuniões da organização, ou decorando ensinamentos para subir de posto. Amigão, digo isso a você porque sei que isso realmente fará uma enorme diferença no modo como você encarar a realidade. Quando a gente vive uma vida espiritual (o que não significa adotar um padrão como o do profeta Daniel: três vezes ao dia voltado para Jerusalém), o modo como a gente encara a vida fica totalmente diferente. Jesus, que sabia o que dizia, falou sobre a espiritualidade ao falar da oração que a gente faz no quarto. Aquela em que a gente fala com Deus coisas que ninguém ouve. Não precisa ser uma oração bonita, mas sem dúvida precisa ser a oração do coração, que expressa aquilo que você percebe, sente e espera de Deus. Eu entro no quarto e oro. Quando Jesus falou de quarto, não quis dizer que você tem de trancar o seu quarto, o que fica difícil se você divide seu quarto com seu irmão ou irmã. Aliás, isso não vai ser nada espiritual, principalmente se houver uma briga para ver quem usa o quarto primeiro.
O quarto na verdade é um lugar secreto e a gente quase não tem esse lugar hoje em dia. Tudo é público demais, tudo é conectado demais. Para se estar nesse lugar precisa-se de tempo para que você abra a boca e o coração para Deus. Eu acredito que você esteja pensando neste instante em como fazer essa oração ou em como viver essa espiritualidade. Vou tentar dar a você algumas dicas que tem funcionado comigo.
Fique sozinho. É muito importante que não haja ruído (e que o MSN esteja off line!). Ruído é toda espécie de distração. Então você tem que eliminar as distrações a fim de se concentrar de verdade no seu amigo.
Trate Deus como seu amigo. Como é que você trata o seu amigo? Será que você vai à casa... do Cabeça, por exemplo (vou usar esse apelido porque sempre existe um Cabeça entre nós!), e diz: Estimado Cabeça, você é meu nobilíssimo amigo. Aquele que tem me tratado com toda a distinção. Bem, não dá nem continuar. Isso tá bizarro. A turma – e o Cabeça – ia zoar você e por um apelido não muito agradável. Não é que tenhamos de chamar Deus de cara e perguntar qual é a dele. Jesus recomendava a palavra pai. Mas se você tiver dificuldade de chamar um papai de amigo, chame-o só de amigo. A verdade é que Deus escuta mais corações que palavras. O pai ouve e se relaciona com você. Sabe aquela minha oração do Sítio do Sossego? Descobri que ela revelava o quanto meu coração era ganancioso e o quanto eu queria aparecer. Não descobri isso porque alguém falou para mim, mas porque quando encontro Deus no quarto é como se a minha pátria fosse Nárnia (espero que você tenha visto o filme) e fora do meu quarto eu me tornasse um embaixador de Nárnia. Não que você tenha de fantasiar sua vida com Deus. A vida com Deus não é um conto de fadas. É realidade pura. Mas ao mesmo tempo depende de uma boa dose de imaginação, pensamento e visualização de Deus em nós e agindo através da gente. Quando saio de Nárnia e me encontro com a vida e vejo o mundo, vejo o quanto esse mundo precisa das atitudes de Deus por meio de mim. Eu sou um embaixador da reconciliação com Deus. Você é um embaixador do reencontro das pessoas com Deus, mas só se Deus for real no seu quarto.
Não use fórmulas. Há livros e livros falando de como orar, dizendo qual é a oração que dá certo (e qual dá errado). Não quero desestimular você, mas Deus não é bom em português, inglês ou francês (o que não significa não estudar para as provas de português e inglês). É que Deus escuta corações. Portanto, seja sincero.
Você alguma vez ousou dizer a Deus que você estava chateado com ele? (O que?! Chateado com Deus?!) Ué? Você prefere dizer que se alegra em sua presença e mentir enquanto ora? Fala sério! Tenho dois filhos, um de sete, outro de um mês. O mais velho uma vez mentiu para mim. Mentiu de novo. Eu perguntei mais uma vez a ele (eu tinha certeza de sua mentira porque era o tipo daquela besteira que você apronta e não dá para esconder, tava na cara, aliás aquela mentira tinha um mau cheiro terrível). Dei-lhe umas boas palmadas. Ele chorou, claro. Eu perguntei a ele por que ele tinha apanhado. Ele me disse? – Porque eu menti. Desculpe papai.
Cara, a mentira é pior que a besteira que você fez, seja ela qual for (o diabo é o pai da mentira, não das besteiras). Ora, Deus sabe o que você fez ou faz, então, se você quer parar de fazer porque o Espírito Santo está tocando em você para não fazer o que você mesmo tem achado em compreendido como errado, simplesmente não esconda dele nem invente uma boa razão para o seu deslize. Seja sincero.
Ah! Você quer saber se meu filho parou de mentir depois das palmadas? Bem... Sinceramente? Não, mas melhorou muito. Muito mesmo. Aprendeu que a mentira tem um custo muito alto. Toda mentira torna a amizade impossível. E se a amizade com Deus é impossível não será possível que em algum momento vejam Deus em você.
Chamei este artigo de O Quartinho de Deus porque todos nós necessitamos desse lugar secreto onde encontrá-lo e, na boa, esse lugar secreto não é a igreja. Você tem duas opções: ser a igreja (ser parte dela) ou estar em uma igreja. A primeira considero a melhor. Para ser parte da igreja de Cristo precisamos do lugar secreto. Só se vai à Nárnia quando se é criança. Só nos chegamos a Jesus quando nascemos de novo. Então, resumindo, temos aqui três dicas para a sua vida espiritual: ficar sozinho com Deus, tratá-lo como amigo e não usar fórmulas quando falar com ele.
Ah! Uma última dica: recomendo a leitura das Crônicas de Nárnia. Se você não tem o hábito de ler, veja os dois filmes: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa e Príncipe Cáspian. Seja como for, não deixe de ler Mateus, cap. 6,5-14.

Brasileiro, casado, do lar...

Acabo de chegar do hospital. Meu filho, de seis meses, o Guilherme, a quem chamamos de Tico, está internado há dois dias por causa de um princípio de pneumonia. Eu estou aqui e minha esposa e as avós se alternam no cuidado daquele ser frágil e indefeso que sequer sabe como usar o seu corpo. Confesso que o tema proposto para este trimestre valeu-me uma boa quantidade de neurônios e, então, veio a inspiração enquanto pensava na minha mulher me abraçando, pedindo-me, em desabafo, para ir embora do hospital e ao mesmo tempo sabendo que não sairia de lá por nada nesse mundo. Diante desse quadro, vou polemizar: não existe essa coisa de mudança de papéis. Não sem que alguém saia no prejuízo e reine a desordem onde tudo poderia estar na mais perfeita harmonia, se observasse a vontade de Deus. Que me perdoem as mulheres workaholics, compulsivas por suas carreiras e que esquecem do dom materno que Deus lhes deu revelado no ventre e confirmado na intimidade da amamentação (fenômeno que só mãe e filho sabem o que significa e onde o pai torna-se mero espectador). Também não sou adepto do sexismo, não sou chauvinista, nem vou dizer que o lugar de mulher seja na cozinha, porque penso que isso nada tem que ver com ser ou não ser mulher. Há certa confusão entre papéis do homem e da mulher e o serviço sacerdotal que o marido presta à sua mulher seja varrendo o chão, limpando o banheiro, seja lavando roupa. Isso não tem nada a ver com o papel do homem ou da mulher. O livro de Gênesis narra a criação do homem e da mulher como o momento máximo da criação. O gran finale de Deus em sua capacidade criativa. Segundo a Bíblia, Ele fez o homem e compadecido de sua solidão criou-lhe a mulher para ser-lhe ajudadora idônea (ainda bem que a Bíblia não especificou em quais quesitos o homem necessitava de ajuda). Na verdade, Deus lhe fez a ajudadora idônea porque o percebera só. Então, ouso dizer que a primeira tarefa do sexo feminino era a de fazer companhia ao homem e não a de ser ajudadora. Ademais, penso seria pavoroso um mundo só de homens, não? Os dois foram verdadeiramente destinados a serem companheiros, e o foram até mesmo no momento da queda. Agora, volte comigo àquele quarto de hotel e pense: quem de nós, homens, desempenharia um papel melhor que o da mãe naquele instante de pura aflição da criança? Que lugar seria melhor que o aconchego do macio e quente seio materno? O que seria melhor do que a proposta de Deus para o homem? Creio que Deus deu o tom da feminilidade e da masculinidade, dotou o Adão de força para proteção, trabalho, desbravamento e recheou a mulher de candura, suavidade e delicadeza. Veja que quando falamos de sexo qualidades nos vem à mente. São qualidades, não especificações para o mercado de trabalho. De fato, no mercado de trabalho as mulheres tem se saído cada vez melhores que os homens e há algum tempo já lhes ameaçam as “posições”. Entretanto, ao mesmo tempo em que observamos seu sucesso no quesito posicionamento na vida profissional (e por que não tocar na grande polêmica: a carreira pastoral?) é triste saber que o número de mulheres que abrem mão da maternidade em função da carreira cresce em doses alarmantes; que as que tem filhos e querem manter a carreira delegam seu dom de mãe a babás, creches e avós (e às vezes aos maridos) e que, após a década de 60, na qual as mulheres orgulhosas deram um passo à independência retirando seus soutiens a fim de queimá-los no episódio que ficou conhecido como Bra-burning, passaram a morrer – e o número só cresce – de câncer no seio, no cólon do útero e principalmente de câncer de pulmão. Ora, tal constatação poderia levar os homens a defenderem a tese defensiva e machista de que isso ocorreu porque as mulheres jamais deveriam ter saído das escolas de etiqueta ou, numa visão mais leve da questão, não deveriam ter abandonado sua função de mãe. Trata-se de um questionamento, a meu ver, absolutamente equivocado. A mobilização feminista almejava a libertação da mulher pondo-a em pé de igualdade com o homem e banindo de vez o mito do sexo frágil. A mulher era apta – e realmente é – para ocupar diversas funções ocupadas pelos homens no mercado de trabalho, no governo e na vida. Contudo, a premissa é equivocada porque ninguém parou para refletir a respeito da situação do universo masculino. Será que os homens estavam certos em viverem somente para suas carreiras e negligenciarem suas famílias e esposas? Será que os homens estavam certos em morrer aos cinqüenta anos de enfarte e de cânceres diversos decorrentes de uma vida em que parar era coisa de frouxo ou de desocupado? Era comum a figura do homem que saía de manhã para batalhar por sua família enquanto a mulher ficava em casa cuidando dos “deveres domésticos”. E isso foi pregado de púlpito por pastores que não poucas vezes renunciavam à família “por amor a Jesus” e se esqueciam das advertências do apóstolo Paulo a respeito da primazia que o cônjuge tem na ordem das preferências ministeriais. O pastor, plenipotenciário, tinha tempo para os sermões, para o gabinete, para o púlpito, para as cruzadas, para as ovelhas, e em pouco tempo colhia os cacos da negligência de seus papéis divinos de marido e de pai, que só ele poderia estar exercendo. Preferiu delegá-lo à mãe. Ao invés da companheira ajudadora o homem ficava com a ajudadora, trampolim de seu “sucesso”. Não digo isso por especulação, meu irmão. Falo como quem já ouviu queixa de filhos de pastores que se ressentem dos pais, odeiam a igreja e já abandonaram há muito tempo o Cristo que era pregado do púlpito. Do mesmo modo será totalmente equivocado contemplar a ordenação de uma mulher que viva para o ministério renunciando o que é irrenunciável: o seu papel de mãe, esposa, ajudadora e companheira. Em síntese, o mundo masculino, tão desejado – e hoje conquistado – pelas mulheres, encontrava-se repleto de erros com respeito aos papéis do homem. Ignorava-se a exortação bíblica de que o homem deveria deixar a casa de seus pais e se unir com sua mulher para se tornarem uma só carne e, ao invés disso, o homem deixava seu pai e sua mãe, unia-se à sua mulher (afinal o sexo não poderia faltar), deixava-a em casa para que desempenhasse o seu papel de ser uma... “do lar”, e tornava-se uma só carne consigo, com seu sucesso, com sua corporação, ou com seu ministério. É por tal razão que não sou a favor dessa idéia de troca de papéis. Deus nos deu a graça de sermos homens, mas a graça não ignora a responsabilidade, do contrário pode ser qualquer coisa, menos graça. Sejamos nós, homens graciosamente responsáveis, sabedores do papel de lavadores de louça quando a mulher estiver esgotada (ou quando ela quiser mesmo é pintar as unhas para nos agradar ou agradar a si mesma), de pais que não trocam os filhos pela Bíblia ou por qualquer culto ou reunião, por mais sagrada que seja, de homens que tenham tempo para nossas mulheres e que não se importem nem um pouco de pensar a respeito de como seria útil fazer uma vasectomia no lugar de entupirmos nossas esposas de químicas contraceptivas porque temos medo do mito de que a vasectomia possa nos deixar impotentes. Por fim, que sejamos homens como Jesus, que não tinha outro papel que não fosse amar o mundo como o pai amou, ao ponto de conspirar com o Pai para a salvação do homem, entregando a sua vida na cruz do calvário por homens e mulheres. Que não tenhamos vergonha de apresentar uma nova qualificação, realmente digna da vontade de Deus. Começando por mim: Rodrigo Moura Coelho da Palma, brasileiro, casado, do lar, depois advogado, depois pastor, e o depois é o depois porque importa que busquemos primeiro o reino de Deus e sua justiça.

Orem por meu filho

terça-feira, 16 de março de 2010

Um dia para lá de especial...




Nasceu hoje, literalmente de quina para a lua (o cara estava sentado. É mole?), o Guilherme Hanthequeste Coelho da Palma. Um novo flamenguista no mundo. A expectativa era grande. Essa fotografia foi tirada instantes antes. Neste momento eu estou no quarto dividindo com vocês a sensação divina da paternidade. Só Deus mesmo. Como é bom! Bom duas vezes, porque o Pedro estava com a sensação divina da fraternidade. Dou graças a Deus. O Deus e também Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.

Um forte abraço a todos que oraram intercedendo por nossas vidas. Valeu gente boa!



segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Tentação da oração...



Responda sinceramente: você já se sentiu tentado a orar? Você diria que isso não existe e me lançaria de pronto a recomendação do irmão Paulo à comunidade de Tessalônica: Orai sem cessar. Isso é verdade. Mas nossa oração, quando não é pelo Espírito e no Espírito é vazia e sem sentido. Sem razão de ser. Já aconteceu isso com você? Às vezes somos tentados a orar. Orar o que queremos, orar como interpretamos a verdade, orar sem sentido, orar sem sentir. Orar é compartilhar a dor do outro. É vibrar com a conquista do outro como se fosse sua, como se fosse participação sua. Orar é orar conforme o anseio do outro. Um pai que deseja um filho voltando ao lar nunca oraria para que deus (ponho em letra minúscula porque este não pode com certeza ser um Deus com "d" maiúsculo) levasse seu filho. Essa oração seria: deus, resolva meu problema. Ponha um fim no outro. Não acredito nisso. Aprende-se muito com Davi e sua fuga do rebelde Absalão. A propósito, humanamente falando, o jovem estava repleto de argumentos para poder substituir seu velho e falido pai. Esqueceu-se de uma coisa: Davi não orava contra seu filho. Duvido que Davi tivesse levantado um clamor do tipo: mate-o Senhor, mate-o. Não combina com seu jeito de ser. Lembro que pediu a um de seus militares que poupasse o jovem Absalão. Digo isso para que cada vez mais percebamos e cresçamos no sentido de que orar pelo outro é orar sentindo a dor do outro. Carregar a culpa do outro é se dividir o peso com ele. É penetrar na vida alheia com paixão e identidade. Uma oração dessas não é uma tentação, mas um convite ao mergulho numa dimensão eterna. A oração tentadora é daquelas que se conformam com este mundo onde vivemos. A foto descreve melhor o que tentei lhe dizer em tantas palavras.

O belo não é ser bonito... Nem feio. O belo é ser humano.

Dez para uma da manhã. Estou aqui, insone, de frente para meu pc, ouvindo o Jornal da Globo ao fundo e pensando sobre esse título que está martelando minha mente desde ontem. Não sei se você já notou -- posso estar enganado e você pode me corrigir --, mas nenhum dos livros do Novo Testamento trata, em momento algum, sobre a beleza humana. Não há belas mulheres nem belos homens. O Antigo, por sua vez, exalta homens belos e musas inspiradoras de beleza. Que o digam os belos Saul e Absalão e a linda Rebeca, que encantou o prometido Isaque. No Novo isso parece que não era importante. Deixa-se quase entender que não existe pode existir ser mais belo que Jesus. Se você colheu também esta impressão, que bom. Tenho encontrado beleza onde só há espanto e aparente desesperança. Tenho encontrado o belo onde o mundo vê tudo feio e também tenho notado a feiúra daquilo que dizem ser bonito. Jesus não era nem bonito nem feio. Jesus era belo. Isso lhe bastava. O belo ser humano chamado Jesus trazia beleza, graça e verdade por onde quer que passasse. Isso incomodava os feios que se pensavam bonitos. As palavras de Jesus são belas porque o seu ser é belo.
Outro dia me abati com a morte de uma menina nova que rendeu-se à tirana exigência que a beleza do mundo nos impõe. Chorei sua morte. Chorei por sua mãe. Era sua única filha. Como esse nosso mundo está feio! Cada vez menos humano. Cada vez menos belo. Lembro de um antigo hino que meu pai costumava cantarolar em casa: "Que a beleza de Cristo se veja em mim". Que verso feliz. O mundo precisa da beleza de Cristo. A beleza humana. Do ser humano restaurado e pleno que encontra uma razão para sua existência. Que não está preocupado com o tamanho de seu espólio após a morte. Ah! A morte. Essa é implacável. Ela não só é feia, é horrível. Não conheço um ser humano que em sua sã consciência veja alguma beleza em sua chegada. Não pode ser são, perdoe-me a franqueza. Mas a beleza de Jesus não poupou nem a morte. Jesus era tão belo que só poderia ser santo (estou furtando a idéia do BOFF, desculpe-me. Afinal é uma bela idéia), tão santo que só poderia ser humano. O humano de Jesus é o belo e ponto final. A beleza de Jesus é a vida para o outro. A vida necessária, que gera vida, que carrega vida, que conversa com a vida. A feiúra do desumano é a vida em si mesma, por si mesma e para si mesma. Darwin não estava certo (não falo de criacionismo). Não são os mais capazes que sobrevivem. É a beleza que mantém a existência. A beleza verdadeira é livre. Livre para ser feia, livre para ser bonita. Mas pode haver beleza na feiúra? Veja que não nego a existência do feio. O feio existe e não é bonito como lhe parece. Contudo, o que é belo, permanece belo, não importa como lhe vejam. Belo é ser como Jesus. Belo é ser humano.