Há algum tempo atrás passei por uma situação embaraçosa na qual me vi entre o dever de me defender usando a verdade, ou confirmar uma mentira e perder meu emprego. Não que eu seja melhor que alguém, ou do tipo “perfeitão”, mas, naquela ocasião, perdi o emprego. Logicamente saí mal daquela situação. Pelo menos com as pessoas envolvidas. Fiquei mal também com a pessoa que me indicou para o emprego. A amizade se foi. O ex-amigo disse para mim que eu estava errado porque na vida o mundo dá voltas. Então, ouvi um indelicado sermão exortando-me que algum dia, no futuro, com certeza, iria precisar daquelas pessoas e que minha atitude havia descartado uma eventual oportunidade em minha vida. Analisando o que o ex-amigo me disse, a vida, segundo ele, consiste em toma-lá-dá-cá. Portanto, o mundo é dos espertos. Quem é esperto chega na frente, quem não é, já ficou para trás. Além do emprego, já deixei subentendido, perdi também o amigo porque falei que essa era uma verdade para a vida dele, não para a que eu estava aprendendo a viver. Minha atitude não tinha nada de original. Inspirei-me em alguém. Num referencial de peso para imitar.
Em Jerusalém Jesus poderia ter sido mais diplomático com os fariseus, poderia ter se entendido melhor com os guardas romanos e talvez, quem sabe, feito um acerto com Judas por debaixo dos panos só para que seu fim não fosse tão trágico. Mas ele não fez assim.
De fato, aos fariseus dizia sempre o que pensava. Com os romanos usou de franqueza e sinceridade e não estava nem um pouco preocupado em causar boas impressões nas pessoas, e, por fim, com Judas, ainda que conhecesse suas tortas intenções, não conteve seu coração ao lhe chamar de amigo até no infame momento da traição.
Ora, os fariseus representavam a nata religiosa de sua época. Eram o partido religioso majoritário, diziam a todos orgulhosamente que cumpriam os inúmeros detalhamentos da lei de Moisés. Por estarem em destaque deviam ser objeto de bajulação e falsa reverência por parte de quem deles necessitava. Arrisco dizer que alguns tivessem uma participação ou fossem até donos das barracas instaladas no pátio do templo, contra as quais um Jesus legitimamente enfurecido desferiu pontapés certeiros e de maneira nem um pouco “santa”. Os fariseus e toda a laia que os bajulava eram os espertos. Tinham poder, influência, estavam associados com Roma, gozavam de prestígio, que nada tem que ver com autoridade. Sim, ser esperto neste mundo é de certo modo estar por cima. Veja-se a extensa galeria de homens de índole duvidosa que governam sobre nós através de puro prestígio, mas com nada de autoridade. Chegaram lá com muita esperteza. Desde os tijolos e ambulâncias “comunitárias” até os monumentos que recebem seu nome ainda em vida, estamos rodeados de espertos de todos os tipos.
Para com os romanos, então, a esperteza não era só necessária, mas vital. Brigar com um deles não deveria ser boa coisa. Em sua fértil capacidade de criar instrumentos de violência e tortura, tiveram a esperteza de inventar a cruz. As pessoas dominadas por aquele império temiam-na. Devia ser uma morte das mais dolorosas. Ainda por cima era morte lenta. Como tratar um romano? Ora, nada complicado: tudo o que seu mestre mandar, faremos todos... Posso ver os sacerdotes de Jerusalém fazendo vista grossa para o paganismo dos invasores. Não digamos nada sobre seu culto a César! Não falemos nada sobre sua corrupção! Do Cesarismo ao Terceiro Reich parece que a velha máxima continuou a mesma. O mundo é dos espertos! Talvez alguém tenha de alguma forma dito isso ao pastor luterano Dietrich Bonhoeffer quando ele e mais algumas pessoas sem qualquer esperteza se dispuseram a denunciar uma igreja cheia de espertos que fez vista grossa para o arrogante argumento da raça superior ariana e que nada viu nem sabia sobre os campos de eliminação em massa das raças inferiores. Quanta esperteza junta! Aqui poderíamos ouvir que não valeria à pena se opor ao regime nazista, afinal seus opositores terminaram fuzilados ou enclausurados por anos. Isto, entretanto, seria o mesmo que pensar que Jesus ensinou que andar duas milhas (cerca de três quilômetros e duzentos metros) quando um romano lhe pedisse a metade disso, como uma expressão de medo, conformismo ou covardia. Contudo, o que muitos espertos não perceberam foi que Jesus falava de uma maneira muda, sem palavras, de se insurgir contra toda forma de violência brutal estabelecida por quem é esperto. Duas pessoas de destaque, uma cristã, outra não, perceberam o poder do seu ensinamento e abriram mão da esperteza humana para liderar dois movimentos durante o século XX que ficaram marcados na história. Mohandas Gandhi, inspirando-se em Jesus, pregou a não-violência e conseguiu, em 1947, a declaração de independência de seu país. Durante sua luta, entretanto, não houve um só momento em que este homem não ouvisse os espertos dizendo o que ele deveria fazer. Deveria pegar em armas, derramar sangue e resistir ao poder britânico! Pouca gente sabe, mas o reverendo Martin Luther King, um cristão, atravessou oceanos para conversar com aquele homem e liderou nos Estados Unidos o movimento pelos Direitos Civis através da prática da não-violência, que culminou com o fim das leis segregacionistas de várias cidades dos Estados Unidos da América. Estes dois homens, assim como Jesus, tiveram o mesmo destino. Foram assassinados pelos espertos. É, o mundo é dos espertos...
Sobrou-nos a esperteza de Judas. Interessante! Diria o ácido e cético personagem principal do seriado americano Doutor House. Por que o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, que conhece o coração dos homens e a quem seria dado todo o poder nos céus e na terra não teve a esperteza de eliminá-lo logo do grupo e evitar todo o sofrimento da cruz? Ou, se não podia vencê-lo, pelo menos juntar-se àquele discípulo tão esperto. Judas era doente pela aparência. Não só a sua, pois gostava de arrotar piedade e demonstrar consciência social, embora não passasse de um ladrão de quinta categoria, como a de seu mestre, que para ele, Judas, não era esperto o suficiente para se tornar o seu herói, um esperado libertador, um novo rei poderoso que subjugasse os romanos com poder político e que pudesse, quem o sabe, garantir-lhe um lugar ao sol no novo reino a ser instalado. Quanta decepção junta. Não sabemos se passou a desviar as ofertas porque estava indignado com a falta de esperteza de seu mestre, ou, se o fazia porque era ainda mais esperto do que pensamos. Judas não traiu Jesus com um beijo. Traiu-lhe quando decidiu continuar sendo esperto, ou ainda, quando ao mostrar ser mais inteligente que os outros discípulos, decidiu agir contra a falta de esperteza de Jesus ao invés de se contentar com uma estúpida disputa de alguns outros discípulos sobre quem seria o maior no seu reino ou a respeito de qual lugar ocupar numa mesa de jantar. O beijo do traidor só nos mostra uma coisa: Jesus não era esperto. Na verdade nem se preocupava com isso. Pouco importava ser ou não. Portanto, chamar o traidor de amigo e saudá-lo fazia parte de sua natureza que levou João a observar em seu evangelho que o mestre em total falta de esperteza amara seus discípulos até o fim. Por fim, já preso e contrariado, poderia ter sido esperto diante de um Pilatos visivelmente desconfortável com o que estava fazendo e usar de seu tão eloquente discurso, que atraíra multidões, para demovê-lo da possibilidade de crucificá-lo só para agradar um bando de espertos. Jesus preferiu dizer que o reino dele não era deste mundo. Pilatos lavou as mãos e o mundo continua sendo dos espertos.
Em Jerusalém Jesus poderia ter sido mais diplomático com os fariseus, poderia ter se entendido melhor com os guardas romanos e talvez, quem sabe, feito um acerto com Judas por debaixo dos panos só para que seu fim não fosse tão trágico. Mas ele não fez assim.
De fato, aos fariseus dizia sempre o que pensava. Com os romanos usou de franqueza e sinceridade e não estava nem um pouco preocupado em causar boas impressões nas pessoas, e, por fim, com Judas, ainda que conhecesse suas tortas intenções, não conteve seu coração ao lhe chamar de amigo até no infame momento da traição.
Ora, os fariseus representavam a nata religiosa de sua época. Eram o partido religioso majoritário, diziam a todos orgulhosamente que cumpriam os inúmeros detalhamentos da lei de Moisés. Por estarem em destaque deviam ser objeto de bajulação e falsa reverência por parte de quem deles necessitava. Arrisco dizer que alguns tivessem uma participação ou fossem até donos das barracas instaladas no pátio do templo, contra as quais um Jesus legitimamente enfurecido desferiu pontapés certeiros e de maneira nem um pouco “santa”. Os fariseus e toda a laia que os bajulava eram os espertos. Tinham poder, influência, estavam associados com Roma, gozavam de prestígio, que nada tem que ver com autoridade. Sim, ser esperto neste mundo é de certo modo estar por cima. Veja-se a extensa galeria de homens de índole duvidosa que governam sobre nós através de puro prestígio, mas com nada de autoridade. Chegaram lá com muita esperteza. Desde os tijolos e ambulâncias “comunitárias” até os monumentos que recebem seu nome ainda em vida, estamos rodeados de espertos de todos os tipos.
Para com os romanos, então, a esperteza não era só necessária, mas vital. Brigar com um deles não deveria ser boa coisa. Em sua fértil capacidade de criar instrumentos de violência e tortura, tiveram a esperteza de inventar a cruz. As pessoas dominadas por aquele império temiam-na. Devia ser uma morte das mais dolorosas. Ainda por cima era morte lenta. Como tratar um romano? Ora, nada complicado: tudo o que seu mestre mandar, faremos todos... Posso ver os sacerdotes de Jerusalém fazendo vista grossa para o paganismo dos invasores. Não digamos nada sobre seu culto a César! Não falemos nada sobre sua corrupção! Do Cesarismo ao Terceiro Reich parece que a velha máxima continuou a mesma. O mundo é dos espertos! Talvez alguém tenha de alguma forma dito isso ao pastor luterano Dietrich Bonhoeffer quando ele e mais algumas pessoas sem qualquer esperteza se dispuseram a denunciar uma igreja cheia de espertos que fez vista grossa para o arrogante argumento da raça superior ariana e que nada viu nem sabia sobre os campos de eliminação em massa das raças inferiores. Quanta esperteza junta! Aqui poderíamos ouvir que não valeria à pena se opor ao regime nazista, afinal seus opositores terminaram fuzilados ou enclausurados por anos. Isto, entretanto, seria o mesmo que pensar que Jesus ensinou que andar duas milhas (cerca de três quilômetros e duzentos metros) quando um romano lhe pedisse a metade disso, como uma expressão de medo, conformismo ou covardia. Contudo, o que muitos espertos não perceberam foi que Jesus falava de uma maneira muda, sem palavras, de se insurgir contra toda forma de violência brutal estabelecida por quem é esperto. Duas pessoas de destaque, uma cristã, outra não, perceberam o poder do seu ensinamento e abriram mão da esperteza humana para liderar dois movimentos durante o século XX que ficaram marcados na história. Mohandas Gandhi, inspirando-se em Jesus, pregou a não-violência e conseguiu, em 1947, a declaração de independência de seu país. Durante sua luta, entretanto, não houve um só momento em que este homem não ouvisse os espertos dizendo o que ele deveria fazer. Deveria pegar em armas, derramar sangue e resistir ao poder britânico! Pouca gente sabe, mas o reverendo Martin Luther King, um cristão, atravessou oceanos para conversar com aquele homem e liderou nos Estados Unidos o movimento pelos Direitos Civis através da prática da não-violência, que culminou com o fim das leis segregacionistas de várias cidades dos Estados Unidos da América. Estes dois homens, assim como Jesus, tiveram o mesmo destino. Foram assassinados pelos espertos. É, o mundo é dos espertos...
Sobrou-nos a esperteza de Judas. Interessante! Diria o ácido e cético personagem principal do seriado americano Doutor House. Por que o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, que conhece o coração dos homens e a quem seria dado todo o poder nos céus e na terra não teve a esperteza de eliminá-lo logo do grupo e evitar todo o sofrimento da cruz? Ou, se não podia vencê-lo, pelo menos juntar-se àquele discípulo tão esperto. Judas era doente pela aparência. Não só a sua, pois gostava de arrotar piedade e demonstrar consciência social, embora não passasse de um ladrão de quinta categoria, como a de seu mestre, que para ele, Judas, não era esperto o suficiente para se tornar o seu herói, um esperado libertador, um novo rei poderoso que subjugasse os romanos com poder político e que pudesse, quem o sabe, garantir-lhe um lugar ao sol no novo reino a ser instalado. Quanta decepção junta. Não sabemos se passou a desviar as ofertas porque estava indignado com a falta de esperteza de seu mestre, ou, se o fazia porque era ainda mais esperto do que pensamos. Judas não traiu Jesus com um beijo. Traiu-lhe quando decidiu continuar sendo esperto, ou ainda, quando ao mostrar ser mais inteligente que os outros discípulos, decidiu agir contra a falta de esperteza de Jesus ao invés de se contentar com uma estúpida disputa de alguns outros discípulos sobre quem seria o maior no seu reino ou a respeito de qual lugar ocupar numa mesa de jantar. O beijo do traidor só nos mostra uma coisa: Jesus não era esperto. Na verdade nem se preocupava com isso. Pouco importava ser ou não. Portanto, chamar o traidor de amigo e saudá-lo fazia parte de sua natureza que levou João a observar em seu evangelho que o mestre em total falta de esperteza amara seus discípulos até o fim. Por fim, já preso e contrariado, poderia ter sido esperto diante de um Pilatos visivelmente desconfortável com o que estava fazendo e usar de seu tão eloquente discurso, que atraíra multidões, para demovê-lo da possibilidade de crucificá-lo só para agradar um bando de espertos. Jesus preferiu dizer que o reino dele não era deste mundo. Pilatos lavou as mãos e o mundo continua sendo dos espertos.
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