Elifaz, Bildade e Zofar começaram bem, se pretendessem dar bons conselhos ao seu amigo Jó, vitimado das conseqüências de uma curiosa aposta travada entre Deus e Satanás. Parece que tudo o que o pobre homem queria mesmo era ficar quieto. Não podemos dizer que quisesse estar só. Acredito que não. Fosse assim teria pedido para que lhe deixassem. No entanto ficou ali, quieto, estático, assustadoramente silencioso diante do desfecho de seu infortúnio, sua enfermidade que num golpe final lhe ceifara a auto-estima. Há pouco proferira uma frase que ainda hoje faz a alegria dos consoladores de cemitério: “Deus deu, Deus tomou, bendito seja o nome do Senhor”. Falando assim é até fácil. Difícil seria estar na pele de quem perdeu todos os filhos e ainda ficou com uma mulher murmuradora para consolo. Jó era de fato só integridade. Estava tudo indo relativamente bem não fosse por um motivo: os homens, inclusive o agora pobre Jó, abriram suas bocas. Desembestaram a falar e na mesma crença que Jó tinha, a dizer que havia uma causa para todo seu azar. Os homens bem que tentaram ajudar, mas a proposta era achar a causa em quem estava doído. Resumiram e ratificaram sua posição de que “aqui se faz, aqui se paga”. De certo modo, estavam parcialmente e empiricamente certos, afinal é o que entendemos, em um primeiro momento, quando lemos que tudo o que o homem planta haverá de colher. Mas estavam completamente errados quanto a um ponto: a liberdade de Deus. Todo aconselhamento cristão, se é que desejamos fugir da incoerência, deve e tem que passar pela verdade irrefutável de que Deus é soberano. Isso implica em pensá-lo como ser livre para agir ao seu modo, ou não agir. E é a sua inatividade que incomoda mais. Jó nunca soube da aposta porque se soubesse talvez revesse seu conceito sobre Deus – eu me sentiria péssimo – , ainda mais se fosse um homem pós moderno e que vê tudo como relativo. Mesmo assim ele obteve de Deus a resposta que precisava. Depois de muito falatório defendendo essa ou aquela causa para seu revés, Deus disse que todos falaram do que não conheciam, inclusive Jó, que tomou um puxão de orelhas como resposta de todos os seus questionamentos. Aliás, a resposta, tão enigmática quanto a aposta, poderia ser sintetizada apenas em uma frase, uma daquelas perguntinhas que destroem todo nosso arcabouço teológico: - e daí? Tanto que abriu os olhos do cego Jó: “agora meus olhos te vêem”.
É lógico que não podemos processar a história de Jó e inadvertidamente, como tantas vezes fazemos ao teimosamente empurrar conceitos e convicções goela abaixo das pessoas que estão tristes, poderíamos ao menos aprender que um bom começo no aconselhamento é que o conselheiro se cale. Sete dias bastaram para uma enxurrada de palavras explodirem das bocas dos amigos de Jó. Talvez ficando calados tivessem sido bons ouvintes, tivessem sido presença de Deus e quem sabe a cura tivesse operado também neles, conselheiros. Falaram como se soubessem de tudo, como se dominassem tudo, como se conhecessem Deus. Mas nada sabiam, ou o pouco que sabiam poderia ser traduzido em nada. É o que declara Jó ao dizer suas conhecidas palavras: “antes eu te conhecia de ouvir falar, mas agora meus olhos te vêem”.
O desfecho da história foi razoavelmente feliz. Afinal Jó teve novas filhas e filhos – e filhas lindíssimas. Sua mulher continuou a mesma (espera-se que não na maneira de ser). Sua riqueza aumentou. Mas a história bastaria se tivesse parado na riqueza do que aprendeu. A maior riqueza que se pode ter quando se deixa de sofrer. Nos versos de Sérgio Pimenta são “palavras de puro mel que exprimem todo o sabor para quem precisa de amor”.
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